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Observadores de pássaros

            

 



"A poesia vai acabar,
os poetas vão ser colocados
em lugares mais úteis.
Por exemplo,
observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não acabarem)."

Manuel António Pina

Mas o passado não é senão um sonho





"mas o passado não é senão um sonho. uma brincadeira com clepsidras avariadas e algum sangue.
não vale a pena estar triste.
todas as histórias, todas as mortes, acabam por se apagar."

Al Berto, O Medo

"Vaso Coronário"






O médico mostra-me o filme É ESTE O SÍTIO
VEJA POR SI Tu sabes agora onde Deus mora
Cinzas o sonho de sete obras-primas
Três degraus e a esfinge mostra as suas garras
Considera-te feliz se o enfarte te apanhar de repente
Sem que um inválido mais atravesse a paisagem
Uma trovoada no cérebro chumbo nas artérias
O que tu não querias saber O TEMPO ESTÁ CONTADO
As árvores no caminho de regresso escandalosamente verdes 

Adolfo Luxúria Canibal / Mão Morta
'Müller no Hotel Hessischer Hof'

(letras escritas a partir de textos de Heiner Müller)

Flutuação






"Era uma vez a sombra dum náufrago que morreu a pensar no que para ele era um mistério: a flutuação."

Mário Rui Cordeiro, A Nau Elétrica

Mas o pior de tudo é o tempo desperdiçado por negligência





"Procede deste modo, caro Lucílio: reclama o direito de dispores de ti, concentra e aproveita todo o tempo que até agora te era roubado, te era subtraído, que te fugia das mãos. Convence-te de que as coisas são tal como as descrevo: uma parte do tempo é-nos tomada, outra parte vai-se sem darmos por isso, outra deixamo-la escapar. Mas o pior de tudo é o tempo desperdiçado por negligência. Se bem reparares, durante grande parte da vida agimos mal, durante a maior parte não agimos nada, durante toda a vida agimos inutilmente.
(...)
Procede, portanto, caro Lucílio, conforme dizes: preenche todas as tuas horas! Se tomares nas mãos o dia de hoje conseguirás depender menos do dia de amanhã. De adiamento em adiamento, a vida vai-se passando."


Séneca, Cartas a Lucílio, (Livro I, Cartas 1-12)


E porque hoje é noite de Halloween...








Um poema de José Duro, poeta decadentista português do século XIX.



"Coveiro

Sonho que sou coveiro, e sinto os braços frágeis
Quando pego na enxada a rasgar um coval, 
Ou quando tomo um crânio e aliso o frontal
Desse cárcere estreito em que houve sonhos ágeis...

Entro no cemitério a horas doloridas;
E, à indecisa luz das claridades frouxas,
Arrasto o meu olhar pelas gangrenas roxas
Dum corpo de Mulher a desfazer-se em vidas...

Um corpo escultural, imaculado, inerme, 
Entregue à sedução fantástica do Verme,
Que o desfigura a rir, numa vertigem louca...

Um corpo que exumei, alucinadamente, 
Em ânsias de remorso, em raivas de demente,
Para poder beijar-lhe a apodrecida boca!"


José Duro, Fel

Fantasma



"Tu, fantasma portador de segredos, redemoinho de poeira, descerás sobre a cabeça daquele que acredita na leveza da alma e no desmoronamento do corpo."

Al Berto, O Anjo Mudo

E se a morte te esquecesse?



"e se a morte te esquecesse?
ficarias aí deitado, o olhar fixo noutros olhares. silencioso, ou a contar histórias de barcos, de oceanos e de mares, de peixes e de turbulentos rios - até que a luz poeirenta do mundo se extinguisse, para sempre."

Al Berto
O Medo

O sorriso


"(...) o sorriso que tens na fotografia morreu
e no entanto está ali e fico perturbado quando o vejo
eu sei que nada está vivo na fotografia ou se repetirá
aqueles sorrisos aqueles instantes para sempre perdidos (...)"

Al Berto, 
O Medo

Afirma Pereira


Morreu Antonio Tabucchi, escritor italiano. Apaixonado por Lisboa e por Fernando Pessoa, foi tradutor e grande divulgador da obra do escritor português.  Tabucchi escreveu obras como "Nocturno Indiano", "Pequenos Equívocos sem Importância", "Tristão Morre".




Um livro lindo, triste e poético.


O romance passa-se em Lisboa, em 1938.
Pereira, editor de um jornal, é um homem viúvo, solitário e pacato, que vive alheado da ditadura salazarista e do ambiente fascista da época.
A sua vida centra-se na mulher morta, com quem tem conversas imaginárias, em comer bem e no sonho de escrever um livro.
Pereira começa a preocupar-se com a sua morte e a reflectir sobre a salvação das almas.
Depois de ler um artigo sobre este tema, resolve procurar o autor para que este escreva no seu jornal óbitos de escritores famosos que ainda não morreram. No entanto, o jovem que contrata (um activista anti-regime) irá mudar a sua vida e envolvê-lo em questões políticas das quais Pereira prefere abstrair-se. À medida que o relacionamento entre ambos vai crescendo, Pereira vê-se forçado a tomar consciência da conjuntura política que o envolve e a fazer escolhas que o vão acordar da passividade com que sempre vivera.